Pesquisa de mestrado em Química sistematizou estudos sobre fungos endofíticos e identificou possibilidades de aplicação na agricultura, na indústria e na saúde

Fungos que vivem no interior das plantas de café podem produzir compostos com potencial para o controle de organismos prejudiciais à cultura e para aplicações em áreas como saúde e indústria. É o que mostra uma revisão sistemática desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UNIFAL-MG sobre os chamados fungos endofíticos associados ao cafeeiro.
A revisão abrangeu estudos publicados entre 2000 e março de 2025. Dos 892 registros inicialmente identificados, 23 atenderam aos critérios estabelecidos pelos pesquisadores para análise. Segundo os autores, até onde puderam verificar, trata-se da primeira revisão sistemática dedicada especificamente a integrar informações sobre a diversidade dos fungos endofíticos do café, seus compostos e possíveis aplicações.

Os resultados foram publicados na revista internacional ACS Agricultural Science & Technology. O artigo é assinado pelos doutorandos em Química Johan Mateo Rios Marin e Lucas Silva Tironi e pelos professores Jaine Honorata Hortolan Luiz e Adriano Aguiar Mendes, docentes do Instituto de Química e do PPGQ.
A proposta surgiu durante o mestrado de Johan Marin, quando o pesquisador investigava fungos endofíticos associados ao café e seu potencial para produzir enzimas e compostos com atividade antimicrobiana.
“Durante o desenvolvimento do trabalho experimental, percebemos que existia uma quantidade muito grande de informações dispersas sobre esses microrganismos e suas diferentes aplicações”, relata.
Potencial para o controle biológico

Os fungos endofíticos vivem no interior dos tecidos das plantas sem necessariamente causar doenças. Entre os estudos reunidos pela revisão, alguns indicam que esses microrganismos podem contribuir para a proteção das plantas contra fungos, bactérias e insetos.
A capacidade de alguns deles produzirem moléculas capazes de inibir ou controlar outros microrganismos foi um dos aspectos que mais chamou a atenção da equipe. “Essa característica é especialmente relevante para a agricultura, pois os fitopatógenos podem comprometer a produtividade e a qualidade das culturas”, explica Johan Marin.
No caso do café, os trabalhos analisados apresentam resultados relacionados a organismos associados a problemas como a ferrugem e o bicho-mineiro. A revisão também mostrou forte presença brasileira nesse campo: em 65,22% dos estudos selecionados, os fungos analisados haviam sido isolados de cafeeiros cultivados no Brasil.
Para além da agricultura

A revisão também reuniu estudos sobre compostos produzidos pelos fungos, chamados metabólitos, e enzimas com potencial de interesse para áreas como biotecnologia, indústria química, alimentos e saúde.
Entre os trabalhos analisados, há registros de compostos com atividade contra bactérias, inclusive microrganismos resistentes a determinados antimicrobianos. Esses resultados, porém, representam etapas de investigação científica e não significam que produtos ou tratamentos estejam disponíveis para uso.
“Para mim, esse é um dos aspectos mais interessantes da pesquisa: um fungo encontrado vivendo dentro de uma planta pode produzir moléculas com aplicações que vão muito além daquela relação ecológica original”, comenta Johan Marin.
Do laboratório à aplicação

Apesar das possibilidades identificadas, ainda existe uma distância entre os resultados observados em laboratório e o desenvolvimento de uma tecnologia disponível para produtores ou para a indústria. “Existe uma diferença importante entre demonstrar uma atividade em laboratório e desenvolver uma aplicação tecnológica”, destaca o pesquisador.
Segundo Johan Marin, ainda são necessários estudos para avaliar mecanismos de ação, eficácia, toxicidade, segurança e estabilidade dos compostos. No caso das aplicações agrícolas, resultados obtidos em laboratório também precisam avançar para testes em plantas e, posteriormente, em condições mais próximas da realidade de cultivo.
A própria revisão passou a orientar novas investigações na UNIFAL-MG. Atualmente no doutorado, Johan Marin estuda o potencial biológico e químico de fungos endofíticos associados a cafeeiros cultivados no Sul de Minas Gerais, incluindo os metabólitos produzidos por esses microrganismos e sua atividade contra patógenos de importância agrícola.
“A revisão permitiu organizar o conhecimento que já existia, enquanto no doutorado nosso grupo de pesquisa busca avançar experimentalmente e verificar, em condições controladas, o potencial de fungos endofíticos associados a plantas de café cultivadas no Sul de Minas Gerais”, explica.
Pesquisa amplia colaboração internacional
Para Johan Marin, a publicação na ACS Agricultural Science & Technology amplia a circulação do conhecimento produzido na pós-graduação da UNIFAL-MG. “A publicação representa uma oportunidade importante para dar visibilidade internacional à pesquisa desenvolvida na UNIFAL-MG e também para mostrar o potencial do Brasil na investigação da biodiversidade microbiana associada ao café e de suas aplicações biotecnológicas”, afirma.
“Para mim, tem ainda um significado especial porque o trabalho nasceu de uma pesquisa desenvolvida na UNIFAL-MG durante o mestrado e continua sendo aprofundado no doutorado. A publicação em um periódico internacional especializado ajuda a mostrar que a pesquisa desenvolvida na Universidade pode alcançar a comunidade científica internacional e contribuir para uma área que conecta química, microbiologia, biotecnologia e agricultura”, acrescenta.
Colombiano, o pesquisador veio para a UNIFAL-MG por meio de bolsa do programa GCUB-Mob do Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras e mantém vínculos de colaboração científica na Colômbia. Johan Marin também integra o Grupo de Pesquisa em Biologia da Conservação e Biotecnologia da Corporação Universitária de Santa Rosa de Cabal (UNISARC).
O trabalho contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Confira o artigo na íntegra, acessando aqui.






